Como estimular a criatividade na criança?

Muitas das crianças hoje em dia têm dificuldades em puxar pela criatividade e encontrar temas sobre os quais brincar, escrever, desenhar ou falar. Noto isso diariamente, seja em crianças que frequentam o 1º e 2º Ciclo, ou até adolescentes.

Isto pode dever-se ao excesso de estímulo visual dos jogos, da televisão, e até dos próprios brinquedos. Os brinquedos actuais não dão grande margem para imaginar para além do que ali está.

Antigamente pegávamos num ramo de uma árvore e construíamos uma fisga, ou uma varinha mágica, ou construíamos uma casa em lego e imaginávamos as diferentes divisões, onde seria a cama, a mesa, e até as portas.

Hoje em dia os brinquedos já vêm com todas estas partes incluídas, que nos dão espaço para a construção, mas pouco para a imaginação do contexto e do brinquedo em si.

As bonecas e todos os brinquedos são incontáveis, com vestidos elaborados, pormenores físicos em detalhe e todos os acessórios necessários à disposição.

Quem é que ainda faz vestidos para as suas bonecas?

Quem é que ainda faz casinhas com paus ou ramos, ou panos a fingir de tendas para brincar aos índios?

Quem é que ainda recorta caixas de cartão, usa revistas velhas ou faz uma papa de terra e folhinhas para fingir que é uma bela sopa?

Quem é que prefere inventar estas brincadeiras em vez de brincar com os brinquedos que já estão feitos?

Tenho a certeza que há muitas crianças que gostariam de o fazer, e algumas provavelmente já o fazem. No entanto, quando chega à parte da imaginação, muitas delas têm dificuldade em desenvolver um tema específico.

E isto torna-se muito evidente em contexto escolar.

Hoje proponho a realização de duas actividades muito simples, em que podemos utilizar um brinquedo ou objecto, ou simplesmente puxar pela imaginação sem nenhum suporte.

São duas actividades que estimulam a criatividade e ao mesmo tempo desviam o pensamento de pormenores que podem estar a influenciar de forma negativa o dia-a-dia, ou podem mesmo reflectir a emoção ou pensamento da criança numa determinada altura:

  1.  Pedir à criança que pense num local que seja sinónimo de tranquilidade e segurança para si. Depois pedimos para fechar os olhos e imaginar que se encontra nesse local (ex: a praia, o campo, a escola, casa, etc). O pensamento positivo pode ser explorado “até à exaustão”. Isto é, como se sente nessa altura (física e emocionalmente), o que tem vestido, com quem está, quais são os sons que ouve, as formas e cores que vê, o que sente na pele (o que consegue tocar com as mãos ou os pés, se está frio ou calor…), os cheiros à sua volta, se consegue saborear alguma coisa. O objectivo é redireccionar os cinco sentidos para um momento de relaxamento e criatividade, para que a criança perceba que pode imaginar aquilo que quiser dentro da sua cabeça, sendo o pensamento um momento só seu. Os detalhes não precisam de ser verbalizados pela criança, mas a orientação do adulto neste tipo de tarefa é importante.
  2. De seguida podemos experimentar ir um pouco mais longe. Vamos pegar numa imagem ou objecto simples (por exemplo uma maçã, uma goma, um desenho de um animal, ou uma planta, uma paisagem, ou uma pessoa) e criar/ contar uma história a partir da mesma. As perguntas podem ser várias, sendo o objectivo, a criação de uma história original. Podemos pedir para pensar no nome da personagem ou objecto, quantos anos tem, onde vive, a quem pertence, o que gosta de fazer, o que come, o que bebe, quem são os seus amigos, se anda na escola, o que esteve a fazer antes e o que irá fazer a seguir, o que está ali a fazer, em que estação do ano está… Enfim, todas as perguntas possíveis que permitam criar um ambiente que rodeie aquela imagem ou objecto. Podemos no final sugerir um desenho que envolva a imagem/objecto, tendo em conta os pormenores que foram dados.

Ao realizar estas actividades simples, estamos a promover a criatividade na criança, a vontade e o desejo de imaginar para além do que lhe é imposto diariamente.

Este ou outro tipo de brincadeira pode ser muito útil para tarefas futuras, em que a criança deve puxar pela imaginação para escrever uma história ou simplesmente para brincar num mundo que é só seu.

Todos os pais estão convidados a experimentar fazer o mesmo para si próprios.

Todos os pais estão convidados a voltar ao seu tempo de infância, a dar largas à imaginação e a brincar com os seus filhos de forma livre e descontraída.

Vamos ver como se sentem no final.

Afinal, o exemplo é o melhor caminho para a educação!

Por Dra.Rita Bettencourt
para Up To Lisbon Kids

Ler também O Tempo que não temos… e o tempo que temos

Foto [email protected]

 RITA BETTENCOURT,
37 anos, Carnaxide | Psicóloga Educacional
Sou Psicóloga Educacional, mas antes disso sou mulher, filha, tia, irmã, amiga, e apesar de ainda não ser mãe, considero que tenho muitos “filhos”, não só de sangue, como de coração.


Este é um espaço aberto. Irei responder a todas as questões aqui colocadas. Sinta-se à vontade para esclarecer as suas dúvidas.

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