TPC – Trabalhos de casa ou uma carga de trabalhos?


SOLENE
1. Feito com aparato e pompa; 2. Que impõe respeito.[1]

Há palavras que fazem mais sozinhas do que frases inteiras, todas juntas. É o caso. O adjetivo ‘solene’, por ter em si duas derivações opostas, é o que mais se assemelha à atualidade do nosso mundo escolar, isto é, duas formas de agir, e de reagir, dentro do mesmo conceito. Respeito e aparato. Dois sentidos diferentes, o mesmo significado.

Assim vai a nossa escola, baralhando tudo.   Pais e professores, dois grupos inseparáveis na formação das crianças enquanto indivíduos, duas pedras basilares que contribuem em pé de igualdade para o seu desenvolvimento, são muitas vezes a causa, e o efeito, que transforma aquilo que deveria ser importante, calmo e majestoso, (solene) num aparato estridente e confuso que nos funde a todos, educadores e educandos, numa espécie de anel apertado de regras e deveres, que a todos desgasta e consome, causando um atrito que faz separar os grupos que mais se deviam unir. Cresce a distância entre aquilo que é o papel da escola e aquilo que é o papel da família, sendo cada vez mais visível a mistura de papéis, e a confusão das crianças. Quero com isto dizer que, da mesma forma que os professores foram confrontados com um aumento da permanência das crianças na escola, também eu sou diariamente confrontada, para não dizer obrigada, com/a desenvolver tarefas escolares que apesar de serem da minha filha e pertencerem ao espaço da escola, me são servidas por altura do jantar, como se fizessem parte do meu menu diário. Na verdade sinto-me cada vez mais refém da vida escolar da minha filha, e posso mesmo afirmar que a nossa relação se vem deteriorando a cada dia por razões totalmente impostas pela escola. O meu caso não é único, e são grandes as diferenças entre professores.

Os trabalhos de casa, imensos, diários e repetitivos – que não acrescentam em nada à aprendizagem ou à evolução escolar da minha filha, isto se pensarmos que está 8 horas dentro de uma escola (e mais de dois terços dentro da sala de aula – vêm ocupar um tempo que é meu! Ora se a criança necessita dos dois grupos basilares (escola e família) para se fazer enquanto indivíduo, há aqui uma notória usurpação por um dos grupos na educação da minha filha, e como a balança pende totalmente para a escola, o desequilíbrio surge na família.

A escola impõe-se à família através dos TPC´s, e isto é desrespeito, quando deveria ser solene. Oiço dizer que as crianças são mal-educadas. Pois são. E serão. A razão radica tão-somente no papel da família, sem tempo e sem fulgor, tão reduzido e tão mínimo que é quase imperceptível na identidade da criança. É como se a criança fosse obrigada a trabalhar sempre através da escola, sem descanso, tornando-se prisioneira do seu próprio desenvolvimento, prisioneira do saber académico. A minha filha de oito anos quando chega a casa deveria ter o tempo que lhe resta para absorver a educação filial, dos afetos, das brincadeiras, dos ensinamentos, das emoções, mas não, a minha filha chega a casa para continuar os ensinamentos da escola. Além de ser excessiva esta espécie de formatação académica, a escola está a cometer um grande e perigoso erro: rouba-me o tempo e enfada e satura a criança, que a curto prazo pode criar anticorpos contra a escola e vir sofrer de falta de criatividade, isto é, falta de liberdade para brincar, tempo para pensar, tempo para si enquanto indivíduo, impedida de estar sozinha, enfiada que está num meio coletivo, numa aprendizagem unilateral, pejada de números e letras, em cadernos enfadonhos e sem cor.

O meu tempo de mãe é-me assim roubado por três composições, quatro tabuadas e contas ambíguas de somar. E é aqui que entra o aparato. Porque eu disparato.   E disparato com a miúda, que não sabe escrever como eu, que a cada palavra apaga, a cada conta erra, porque são dez e meia da noite e o texto ainda vai a meio. E eu tenho o saco cheio. E só me apetece é ralhar com a professora, coitadinha da senhora, que até é minha amiga. Como disse lá atrás, sinto que a escola está a educar a minha filha, mas não só.

A escola com a sua mania de mandar trabalhos para casa, especialmente esses travestidos de Natais, São Martinhos, dias de Mães e de Pais, e com a sua rocambolesca teoria de que só assim se consegue que os (irresponsáveis) pais façam algumas atividades em conjunto com os filhos, está no fundo a dar palpites e a impingir-me um tipo de relação que não quero ter com a minha filha, e vou mais longe, está a tentar ensinar-me como devo relacionar-me com ela. A escola, ao tentar unir os pais aos alunos, com cópias e ditados ‘inocentes’, está sim a separar a família dos filhos e ainda mais os alunos da escola. Desde que a minha filha começou o seu longo percurso escolar, há três anos portanto, que tenho escola por todo o lado.

Escola em casa, escola no trabalho, escola no verão, escola na Páscoa, nas férias grandes e no Natal. Tenho a escola pela testa. Eu não quero trazer o meu escritório para casa, como também não quero o trabalhos  da escola em casa. Eu não quero composições ao fim de semana e tabuadas nas férias. Eu quero ter a minha filha só para mim, e tenho direito de a ter só para mim, sem o envolvimento de sílabas, ditongos e composições. A escola, que tanto se queixa da falta de tempo para preparar aulas, deveria ter em conta que os pais também trabalham o dia inteiro, e vamos lá ver: se não compete à escola a educação parental, porque me há de caber a mim a educação e os ensinamentos escolares? Bem sei o que muitos vão dizer: que uma conversinha de pé de orelha deixava muita professora nos eixos. Mas não, porque a professora segue as regras que aprendeu também ela, enquanto profissional.

Os TPC´s muito embora estejam quanto a mim completamente desenquadrados da realidade familiar, e até da atualidade educacional, são parte integrante dos conteúdos programáticos. Além do mais, a professora pode não aceitar que uma mãe lhe imponha os seus métodos, como eu, que também não aceito que ela me imponha os dela. Não considero por isso, o professor como sendo o único ator responsável por este mau teatro. Também ele, enquanto profissional, foi ensinado desta forma ou pelo menos o que aprendeu transformou-o desta forma. E os outros pais? Que dizem eles? Alguns concordarão comigo, outros não.

Há pais que podem proporcionar aos filhos o tempo que eu não tenho. Há pais em casa o dia todo, há pais em casa às seis da tarde que podem fazer estes trabalhos de casa que eu não consigo encaixar na minha vida pela simples razão de que não estou em casa (nem o dia todo e nem às seis da tarde) e o mais engraçado é que a minha filha também não. Outros poderão dizer que eu, como encarregada de educação, tenho o direito de não fazer TPC´s. Que não é obrigatório. Pois claro, nem poderia ser. Há pais analfabetos, que não sabem ler uma letra do tamanho de um palácio, quanto mais ler intrincados enunciados. Mas e depois, a miúda? A miúda chora baba e ranho agarrada às minhas pernas se não fazemos o TPC.

Resumindo: Da mesma maneira que não me faz qualquer sentido TPC´s até ao 4º ano de escolaridade, por não adicionar mais-valias significativas à aprendizagem da criança, menos sentido me faz nas férias (grandes ou pequenas) ou aos fins de semana. As crianças necessitam de brincar, dormir e descansar e até, pasmem-se, de ver televisão e jogar computador. Se os professores não trabalham nas férias, não deviam impingir isso aos seus alunos e aos pais dos seus alunos. O momento é solene. Não façam mais aparato.

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[1] "solene", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,  [consultado em 29-11-2014].
UVA PASSA
Querem saber de mim, querem saber quem sou. Ah, meus amigos, meus amigos. Não queiram saber de nada. Não queiram saber de mim. Pois que não vos quero desiludir, por não ser afinal nada. Sou somente uma Uva redonda falida, uma Uva maluca-passada, esculpida, trajada, neste blog (e nesta vida), onde o que fica do que passa, é somente a história verdadeira… ou então uma grande farsa. Divirtam-se. E bem vindos ao meu delírio.

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